Liderança isolada, ausência de oposição e Calheiros X Lira: cientista político analisa cenário eleitoral de 2024 e reflexos em 2026

A liderança do prefeito de Maceió, JHC, o desgaste político de alguns dos possíveis adversários, a queda de braços entre o senador Renan Calheiros e o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, e os reflexos, em 2026, do pleito eleitoral deste ano, foram alguns dos assuntos abordados pelo cientista político, doutor em Ciência Política e professor da Universidade Federal de Alagoas (Ufal), Ranulfo Paranhos, em entrevista exclusiva ao CadaMinuto.
“Costumamos dizer que ou estamos em ano eleitoral ou em ano pré-eleitoral. Agora estamos em ano eleitoral, 2024, e 2025 é um ano pré-eleitoral. Isso quer dizer que todo arranjo de um ano anterior é feito pensando no ano subsequente e as eleições também. Todas as eleições municipais são feitas pensando nos arranjos das eleições estaduais. E as estaduais também são arrumadas pensando nas eleições para presidente da República”.
Depois de reforçar que, com base na “dinâmica” descrita acima, o pleito deste ano será sim uma “prévia” 2026, Paranhos falou inicialmente sobre os dois grupos “bem definidos” que estão na disputa, sem excluir a possibilidade de JHC liderar um terceiro grupo.
“O primeiro grupo é o mais estabelecido, dos Calheiros, que tem dois senadores, mais de 60 prefeituras no seu arco de aliança, mais os aliados e o governo do Estado, o cargo mais importante. Na outra força política você tem o Arthur Lira, do PP, partido que deve ter pelo menos umas 30 prefeituras, não só do partido, mas que compõem a aliança e isso implica na segunda força e em um projeto político a curto, médio e longo prazos. E do outro lado você tem o JHC, candidato à reeleição, mas que flerta aqui e ali com uma pré-campanha para governo do Estado, que flerta aqui e ali com um modelo de alianças políticas que pode, consequentemente, minar tanto o grupo dos Calheiros quanto o grupo do Arthur Lira”, explicou.
Para o cientista político, os três grupos políticos – ou dois, caso a aliança de JHC com Arthur Lira se mantenha e se consolide – dependem do pleito eleitoral deste ano, porque quanto maior a quantidade de prefeituras que cada um desses grupos consiga fazer, maior a probabilidade de capilarização da força política em 2026: “O grupo do Renan Calheiros e o grupo do Arthur Lira precisam de um número significativo de políticos com mandato, de prefeituras, para capilarizar suas intenções, para garantir eleições de deputados estaduais, eleições de deputados federais, eleição para governador e por aí vai”.
Lula e Bolsonaro
Em relação à presença – ou ausência – do presidente Lula e do ex-presidente Jair Bolsonaro na disputa local, Ranulfo Paranhos lembra que, em estados pequenos como Alagoas, o retorno político para as lideranças políticas nacionais é mínimo. Levando-se em consideração ainda o fato de o presidente da República ter um “apoio duplo” em Alagoas, a aposta do cientista político é que “o que Lula puder fazer para se distanciar dessa disputa, ele fará”.
“O primeiro ponto é o colégio eleitoral pequeno em relação ao nacional e o segundo ponto é que Lula tem esse ‘duplo apoio’ aqui, tanto Lira quanto o Calheiros – esse de uma forma muito mais clara, pertence à base do governo, – e Lira tem o jogo do ‘morde e assopra’, o poder da caneta da Câmara dos Deputados, que ora ameaça o governo e o governo cede, aí eles se aproximam nas alianças e ora se distanciam mais… Enfim, como é que o Lula iria subir no palanque do JHC – se ele for efetivamente apoiado pelo Lira – e de um outro candidato do MDB, do Paulo Dantas, dos Calheiros? Isso traria um inconveniente muito grande”, analisou o cientista político.
Já em relação a Bolsonaro, entre as discussões, segundo Paranhos, está se JHC vai querer a presença do ex-presidente no palanque. “Bolsonaro entrou em desgaste, mas ainda é um cabo eleitoral muito forte, no entanto, do ponto de vista proporcional, a capital tem a maior quantidade de votos alinhada a esse discurso do Bolsonaro? Essa é uma leitura que JHC e Lira irão fazer, porque um candidato com uma imagem negativa, ele pode tirar mais votos do que garantir votos. Se a leitura for feita nesse sentido, então Bolsonaro será rejeitado. Se for feita no sentido de consolidar votos, então ele virá para cá, porque ele tem uma agenda mais folgada. Sem mandato para gerenciar, ficaria mais fácil para ele vir para Maceió”.
Oposição: ausência e desgaste
Sobre a ausência de nomes da oposição na disputa majoritária na capital, o professor da Ufal destacou que, nos municípios grandes, quando o prefeito consegue fazer uma larga maioria, a oposição tende a desaparecer. Ele também avaliou os possíveis “pré-candidatos” no atual cenário de “ausência de oposição”:
“O ex-governador e atual vice-governador Ronaldo Lessa está na disputa desgastado, o ex-prefeito Rui Palmeira está na disputa desgastado. Quem pode se lançar, o deputado federal Rafael Brito? Pode ser que sim, mas o nome dele não é tão evidente, não está tão em evidência quanto do próprio JHC. É o nome do governo, é o nome dos Calheiros e pode se viabilizar, mas vai depender da largada, de como ele faz essa campanha, vai depender dos apoios”.
Paranhos prosseguiu pontuando que a maioria na Câmara Municipal e os recursos financeiros para gestão têm feito muita diferença para a administração JHC, o que vai minando ainda mais as possibilidades de oposição competitiva, que normalmente surge de alguém que já tem mandato, um deputado estadual, federal ou um vereador. “Nesse momento a gente tem, possivelmente, um deputado federal se pautando como o candidato da oposição ao prefeito”.
Aprovação, pedras no caminho e “direita”
O cientista político frisou a importância de lembrar que candidatos à reeleição para o Executivo têm a máquina pública para condução da campanha política, o que maximiza as chances de garantir ou consolidar a liderança.
Especificamente no caso de JHC, analisou que o prefeito fez uma gestão que tem, hoje, grande aprovação da população maceioense: “Essa coisa de ter cuidado do turismo, de ter dado uma visibilidade a Maceió… Isso ajudou bastante a fazer com que ele fique isolado. E outra coisa é que não há, ainda, um nome muito conhecido para disputar com o prefeito. O cenário já contribui para JHC estar na frente, e tem ainda o esforço dele como prefeito”.
Sobre as possíveis “pedras no caminho da reeleição”, Ranulfo citou a CPI da Braskem. “Até que ponto essa CPI conseguirá ter efeito sobre a imagem de JHC? JHC vai conseguir capitalizar também sobre isso?”, questiona. Para o doutor em Ciência Política, o que pode atrapalhar uma reeleição é sempre algum escândalo de corrupção: “Isso é o que mais mancha do ponto de vista público”.
Se um nome mais alinhado “à direita” pode fazer a diferença na capital, cujo eleitoral tem perfil mais conservador? Ranulfo Paranhos respondeu que o espectro ideológico faz mais diferença nas disputas políticas quando elas são mais ampliadas, no caso de governador e, principalmente, presidente da República.
“Quando a disputa é municipal, quando ela é localizada, o espectro ideológico faz pouca diferença, porque as disputas são mais personalizadas. Isso quer dizer que ideologia política não tem tanto efeito sobre a conquista de voto quando a disputa é local. Para prefeito, a disputa é personalizada, é a imagem do indivíduo, é a tradição, são os recursos financeiros, é o arco de aliança política que ele consegue estabelecer para conquistar voto, é serviço prestado, é o histórico, é o se tem corrupção ou não”.
A escolha do vice
A pedido da reportagem, o cientista político analisou ainda a futura indicação do candidato a vice-prefeito. Afirmando que JHC “pode se dar ao luxo de escolher qualquer vice”, Paranhos elencou as razões para isso: “Ele tem a máquina pública, tem recursos na máquina pública para fazer gestão, está na frente das intenções de voto nessas pesquisas prévias, tem aprovação positiva acima de 50%, e um cenário que não apresenta, nesse momento, nenhum candidato forte o suficiente para enfrentá-lo.
“JHC pode escolher qualquer vice, qualquer pessoa da confiança dele, não necessariamente um candidato que vá trazer uma aliança política aí para agregar partidos políticos. É óbvio que isso é importante, agregar partido político, agregar aliança, talvez um candidato indicado pelo Arthur Lira… É óbvio que isso faz muita diferença, mas no caso do JHC, como a disputa está muito mais personalizada no nome dele do que no conjunto de alianças políticas, isso lhe dá uma folga para escolher. Na correlação de força ele tem muito mais poder de escolha e de rejeitar nomes, inclusive, apontados pela aliança”.
Paranhos pontua que o prefeito deverá levar fatores como: se ele terá influência sobre o nome escolhido, se aquela escolha poderá lhe trazer prejuízos políticos em médio prazo e se é um nome que ele queira ter como sucessor em 2026, caso ele se afaste do cargo para disputar o Governo de Alagoas.
“Player” forte
Com o pleito de outubro ocorrendo “às vésperas” da sucessão de Arthur Lira na presidência da Câmara dos Deputados, Ranulfo conversou com o CadaMinuto, por fim, sobre a influência do deputado federal no pleito eleitoral local.
“Arthur Lira se consolidou como um líder importante na Câmara dos Deputados, alguém que consegue transitar no Centrão e alguém que aparentemente vai conseguir fazer o sucessor e ter influência sobre o sucessor. Ao fazer isso, ele consegue manter nos bastidores boa parte dos seus poderes, e isso vai fazer diferença”, afirmou.
“Lira é um player que vai conseguir exercer influência sobre a eleição de Maceió, mesmo não sendo o presidente da Câmara pós-outubro, ele continua sendo um player estadual muito forte, porque é o agente negociador do Centrão, não como um mero deputado estadual, mas como um parlamentar que consegue negociar com o governo, que consegue fazer diferença no estado de Alagoas, por conta das suas alianças com prefeituras, por conta do seu poder político no estado”, finalizou.
Por: Por Vanessa Alencar e Gabriela Flores
