Crônica: Galo Doido. Para entender, é preciso sentir

O ser humano, realmente, é um ser incrível. Semana passada, senti uma emoção totalmente desconhecida. Faz tempo, comecei a namorar um atleticano doente – como a gente diz aqui em Alagoas. Eu já simpatizava com o time antes de conhecê-lo, mas me tornar uma torcedora com “t” maiúsculo não passava pela cabeça. Vale contar que a primeira vez que o vi foi em um jogo do Atlético Mineiro, não me lembro qual, mas lembro perfeitamente que, entre as pessoas da mesa, ele era o mais esfuziante tanto nos bons momentos do jogo, quanto nos momentos sofridos em que disparava uma série de reclamações (eufemismo para xingamentos) no seu sotaque arrastado.

Naquele dia ele me viu, mas não me percebeu, estava totalmente concentrado no jogo, tanto que nem se lembrava de mim até me ver num outro jogo, na casa de um casal amigo, justamente em um Clássico: Atlético x Cruzeiro. Cheguei atrasada (marca pessoal); O local era menor e desta vez ele me viu. Mas contra o arquirrival, cada jogo tem sabor de final. O silêncio era hospitalar.  O Cruzeiro havia feito um gol no primeiro minuto de jogo, o clima estava tenso. Dei boa tarde, todos me responderam o mais breve possível. Passei pela frente da TV correndo e sentei-me no único lugar vago, que era a varanda. Até o intervalo não me atrevi a passar novamente pela frente daqueles torcedores em clima de final de Copa.

Começa o segundo tempo, fiquei observando novamente o comportamento visceral dos torcedores na sala. A cada passe errado, a expressão de dor denunciava como estava apertando no peito.  Veio, então, o segundo gol do rival, aí foi palavrão para tudo que é lado. Para mim, mera expectadora à época, aquela partida estava acabada par o Galo, porém, para o meu espanto, a esperança deles permanecia viva. Parecia não estar assistindo ao mesmo jogo. Dava para ver que ali naquela sala não era, para eles, apenas um jogo de futebol; Era um momento de demonstrar um amor incondicional, arrisco-me a dizer que bem próximo ao amor que uma mãe sente por um filho, mesmo aquele mais rebelde. Aos 42 do segundo tempo o Atlético fez um gol. A atmosfera do apartamento se modificou na hora.  Da varanda assistia aos abraços e sorrisos cheios de crença, “ainda dá pra virar”, pois, assim como as mães, os atleticanos não deixam de acreditar. Não é à toa que esse é o mote da torcida. Mais alguns minutos e daria mesmo, pois saiu mais um gol do Galo. No entanto, antes de saber que seria anulado, vi meu desconhecido/futuro namorado arrancar a camisa como um louco na frente de todo mundo como se ali, naquele momento, ele estivesse em um universo particular. Foi hilário, cena que vou contar aos netos e aos bisnetos.

Depois desse jogo, vesti a camisa do meu atleticano, depois a do Atlético. E se você chegou até aqui pensando que esse texto era pra falar de amor, acertou!  Sempre gostei de jogo,embora as reações exageradas, apesar de muito divertidas de se ver, sempre me pareceram coisa de “fanático”, até eu compreender o que é, realmente, amar um time, sentir-se parte da torcida, no meu caso, da “massa”. E não foi depois de namorar um atleticano que me fez vestir a camisa do Atlético no primeiro encontro, ou de ir ao Horto e sentir aquela vibração transcendental da torcida num coro lindo apoiado nas batidas incansáveis da Galoucura em mais um Clássico onde o Galo deu 3 nas “Marias”, ou porque meu futuro sogro me presenteou com uma camisa (despretenciosamente). A epifania aconteceu na última quarta-feira, 17/07/2019, depois do Galo ganhar de seu eterno rival e ao mesmo tempo perder para ele (coisa que só quem acompanha jogos de futebol vai entender), quando senti uma vontade enorme de chorar, vinda não sei de onde muito parecida com aquela dorzinha fina e intensa  ao bater o mindinho numa quina, que compreendi perfeitamente o que o Chico Pinheiro, brilhante jornalista, quis dizer com isso: “Tem cara que torce para Flamengo, para o Fluminense, para o Botafogo, para o Corinthians, , para o São Paulo, para o Grêmio… nós não torcemos para ninguém. Somos atleticanos. Isso faz uma baita diferença e pouca gente sabe o que é isso.”

 

É, Chico, agora eu sei. AQUI É GALO!!!

 

Camila Moura, no Blog Olhar Revés.

3 thoughts on “Crônica: Galo Doido. Para entender, é preciso sentir

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *